Educação

Do Gabarito à Beca: O Fio Condutor da Nossa Jornada Educacional

A gente passa boa parte da vida sendo avaliado. O começo de tudo quase sempre envolve a tensão absurda de preencher bolinhas num gabarito, torcendo contra o relógio. Lá na frente, porém, a recompensa aparece na forma do alívio puro de vestir uma beca, segurar um diploma e encarar um caminhão de incertezas de peito aberto. No fundo, a trajetória que liga a porta da escola ao palco da universidade é muito menos sobre a decoreba das fórmulas e imensamente mais sobre quem a gente se torna no meio do caminho.

Para entender como essa engrenagem começa a girar, pega o caso de São Paulo agora. Entre quarta e quinta-feira (29 e 30), a molecada vai encarar a estreia do Provão Paulista. É a primeira edição desse vestibular unificado e seriado gigantesco voltado para as instituições públicas de ensino superior do estado. A Seduc-SP contabiliza mais de 1,2 milhão de alunos das três séries do Ensino Médio inscritos, disputando 15.369 vagas para o ano que vem.

A estrutura da prova bate de frente com o currículo básico, mas a secretaria já avisou que não adianta só saber a matéria crua: as questões vêm carregadas de contexto e exigem interpretação de verdade. O caderno de cada série traz 90 questões de múltipla escolha que funcionam assim:

  • No primeiro dia: O foco cai sobre Linguagens (com 20 questões de português e 4 de inglês) e Ciências da Natureza (divididas igualmente com 8 para física, 8 para química e 8 para biologia).

  • No segundo dia: A pegada muda para Matemática (20 questões na lata) e a grande área de Ciências Humanas (7 de história, 7 de geografia, 4 de sociologia e 4 de filosofia).

Quem já está no 3º ano ainda precisa suar a camisa numa redação dissertativo-argumentativa no segundo dia, bem nos moldes daquela pedreira que é o Enem. O pulo do gato desse novo sistema, porém, é a lógica de pesos crescentes. A ideia é valorizar o fôlego do aluno ao longo dos três anos. Para os terceiranistas de agora, a nota final é 80% prova objetiva e 20% redação. Mas a partir de 2024, a conta vira um quebra-cabeça de constância: 30% da prova feita no primeiro ano, 50% do ano vigente e os 20% da redação. Cada faculdade vai soltar suas próprias normativas de matrícula, mas o recado é claro: para ter chance de verdade, tem que fazer todas as etapas ao longo do ensino médio e monitorar as três chamadas unificadas no site da Seduc.

Aí a gente para e se pergunta: e quando essa maratona infindável de vestibulares acaba? Qual é o saldo real de tanta ralação?

A resposta para isso estava estampada debaixo de um céu azul sem nuvens na manhã deste último sábado, lá na Califórnia. Enquanto a galera em São Paulo ainda quebra a cabeça para entrar no ensino superior, o California Memorial Stadium estava lotado para celebrar a formatura da turma de 2026 da UC Berkeley. Foram mais de 7 mil estudantes reunidos para rir, chorar, tirar selfie e refletir sobre tudo o que passaram. E a tônica dos discursos não teve nada a ver com currículo acadêmico ou notas impecáveis; a conversa girou inteiramente em torno de comunidade e conexão.

O reitor Richard K. Lyons mandou a real para os formandos, pedindo que eles usem o que aprenderam para construir pontes no meio de uma era de divisão social pesada. A mesma tecla foi batida por Robert Reich, professor emérito e ex-secretário do Trabalho. Ele não quis enfeitar o pavão e lembrou dos pepinos colossais que os jovens vão herdar – do autoritarismo às mudanças climáticas e um mercado de trabalho caótico –, mas cravou sem medo que aquela plateia reunia os líderes que o mundo precisa urgentemente para proteger quem não tem poder.

Mas o que arrepia mesmo é ver como as histórias individuais dão peso a essas palavras. Charles Long Jr., o orador principal da turma, cravou o termo “intelectuais orgânicos” para definir a galera que não foi pra faculdade para fugir de onde veio, mas para aprender a lutar pela sua comunidade. O cara simplesmente superou encarceramento, a falta de um teto e uma infância duríssima para se formar com destaque duplo em sociologia e bem-estar social. A mensagem dele foi reta: a gente tem a obrigação de deixar as pessoas mais livres, seguras e amadas do que as encontramos. E se a porta fechar, construa a sua própria porta e segure ela aberta para que o próximo possa passar.

Essa mesma força aparecia no rosto do Ato Aliping. Filho de imigrantes das Filipinas e provável primeiro da sua tribo a colar grau, ele chegou a Berkeley graças aos benefícios militares do pai, que passou 30 anos na Marinha americana. Vestindo as cores da sua origem, ele resumiu o que aquele diploma significava para a família em uma palavra: “Tudo”.

A jornada é torta e cheia de percalços. A Alicia Valenciana que o diga. Ela entrou na universidade aos 17 anos querendo neurobiologia, mas a barra pesou em casa. A saúde mental e emocional cobrou o preço, as notas caíram e ela precisou trancar tudo. Anos depois, conseguiu ser readmitida, migrou para a sociologia e hoje tem o plano claro de se tornar conselheira escolar. Ela quer ser a rede de apoio que falta na casa de tantos alunos. E não dá para esquecer do Jared Kazhe, que encontrou sua verdadeira família não nas palestras magnas, mas nos colegas do time de frisbee. Ele subiu no palco orgulhoso, honrando sua identidade Mescalero Apache com trajes tradicionais, um medalhão feito pela avó e adornos costurados pelo tio.

A ironia maravilhosa da educação é justamente essa. Você começa a jornada preocupado exclusivamente com o seu próprio umbigo — com a sua nota de corte, o seu Provão Paulista, a sua bolinha no gabarito. Mas, se o sistema funcionar como deve, você cruza a linha de chegada entendendo que o diploma não serve para muita coisa se não for pelo outro. O sufoco de interpretar um texto hoje no ensino médio de São Paulo é só a preparação para aprender a interpretar o mundo e, quem sabe, segurar a porta aberta lá na frente, exatamente como a turma de 2026 já está fazendo.