O clima de apreensão que antecede as listas de aprovados já faz parte do calendário de milhares de famílias. Desde a segunda-feira, dia 20, os resultados e a lista de convocação para a primeira chamada do Provão Paulista Seriado estão no ar. Para os alunos das redes estadual e municipal de São Paulo, o acesso ao portal para conferir a situação individual pede apenas o nome e o RA (Registro do Aluno); quem vem de fora usa o CPF e o nome. É o momento de ver quem vai abocanhar uma das mais de 15 mil vagas diretas no ensino superior garantidas pelo governo estadual exclusivamente para a rede pública. Só para este primeiro semestre, são 7,6 mil ingressantes espalhados por instituições de peso como USP, Unesp, Unicamp e Fatecs.
Os números assustam e mostram o tamanho da pedreira. Psicologia na USP da capital, por exemplo, puxou a fila da concorrência com absurdos 786,4 candidatos por vaga. Fisioterapia, no mesmo campus, não ficou muito atrás, registrando 618,7. Nas outras gigantes o cenário é parecido: Administração na Unesp de Jaboticabal teve 478,8 na disputa por vaga, enquanto Arquitetura e Urbanismo foi o grande alvo na Unicamp, com 514,7. Até nas Fatecs a briga foi intensa, com o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas em Americana batendo 798,3 candidatos por vaga. Pelo edital, essas cadeiras são fatiadas de forma igualitária entre estudantes da rede estadual, Etecs, alunos de outras redes públicas do país e candidatos autodeclarados pretos, pardos e indígenas. Tudo é organizado em três chamadas unificadas, mas quem passa precisa ficar bem esperto com o cronograma e as regras específicas de matrícula de cada universidade, que também podem soltar listas extras caso sobrem vagas.
O Provão Paulista funciona de um jeito interessante: ele soma o desempenho dos alunos ao longo da 1ª, 2ª e 3ª séries do ensino médio. Quem está nas escolas estaduais ou Etecs já está inscrito no automático. É um avanço para facilitar a entrada nas universidades paulistas — e sequer impede o estudante de encarar simultaneamente processos tradicionais, como a Fuvest. No entanto, o gigantismo e a pressão em torno dessas seleções nos forçam a olhar para o outro lado da moeda. Outro dia, li um artigo recomendando o uso de provas antigas para “construir resistência e foco para os exames”, ilustrando a matéria com a imagem surreal de uma família levando simulados na bagagem de férias. Isso escancara uma realidade incômoda: nossa relação com a educação virou uma corrida maluca por estratégias de aprovação, sufocando o interesse real pela descoberta e pelo aprendizado.
Levar provas para a praia é quase um sintoma do nosso esgotamento coletivo. Uma viagem oferece um repertório riquíssimo se você simplesmente se permitir estar presente no momento. É a chance de investigar novos ambientes, sacar como outras culturas funcionam e absorver modos de vida diferentes. Férias deveriam ser aquele respiro sagrado para se desconectar dos perrengues cotidianos, curtir quem a gente ama e, fundamentalmente, deixar a mente vagar sem rumo. A ciência já comprovou repetidas vezes que essas pausas e o lazer não estruturado são exatamente o que turbina a nossa flexibilidade cognitiva.
Nós vivemos escutando de especialistas e líderes que o mundo vai exigir pessoas com vivências plurais. Numa era que já está sendo engolida pela inteligência artificial, ser uma máquina de fazer provas perde o sentido. As habilidades que realmente farão a diferença no amanhã são o pensamento crítico, a criatividade e a capacidade de se comunicar bem. Avaliações têm o seu lugar na engrenagem educacional, claro, mas a molecada precisa de um ecossistema muito mais aberto e acolhedor para descobrir a própria essência e potencial, longe da neura de que a vida se resume a preencher o gabarito perfeito.




