A tensão de tentar antecipar o tema da redação do Enem é quase um rito de passagem anual para os estudantes brasileiros. É aquele momento em que a realidade do país é esmiuçada em busca do assunto que vai definir o futuro de milhares de jovens. Especialistas como Felipe da Costa Rico já mapeiam o terreno, apontando as questões sociais — da pobreza histórica à exclusão e direitos das minorias — como uma aposta sempre segura, dado o histórico da prova. Falar de meio ambiente, por exemplo, pode parecer chover no molhado numa era de colapso climático, mas o analista lembra de um detalhe curioso: o eixo ambiental não dá as caras como tema principal desde 2008. Existe uma expectativa palpável de que essa conta chegue nas próximas edições.
Mas o buraco parece ser bem mais embaixo quando olhamos para as fraturas mais recentes da nossa sociedade. O crescimento avassalador das plataformas de apostas esportivas engoliu o país de uma forma que a saúde mental e a vulnerabilidade financeira, principalmente dos mais jovens, entraram em parafuso. Jonas Moraes Sousa bate nessa tecla com precisão. A proliferação das “bets” escancarou buracos na nossa legislação, e a própria CPI das Bets já serve como um repertório sociocultural riquíssimo. É um problema com apelo direto ao público do Enem, o que transforma o tema numa aposta fortíssima para o exame.
Lado a lado com essa nova dependência, mora uma tragédia antiga que teima em crescer. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública dão um soco no estômago: em 2023, o Brasil bateu a marca de 1.463 feminicídios. É o maior número desde que a Lei 3.104/15 entrou em vigor, tipificando o assassinato de mulheres por razões de gênero como um agravante do homicídio. Jonas Sousa interpreta essa escalada não apenas como a persistência da violência no ambiente doméstico, mas como a falência crônica das políticas públicas de proteção em regiões vulneráveis.
Tem também a questão sufocante do tempo de tela. Com a recente Lei 15.100/2025 proibindo o uso de celulares nas escolas de educação básica e a Sociedade Brasileira de Pediatria implorando para que crianças pequenas fiquem longe dos visores, a educação digital virou pauta de sobrevivência básica.
É profundamente irônico, e ao mesmo tempo revelador, que o aluno que hoje quebra a cabeça para problematizar o vício em telas ou a inclusão digital na redação está prestes a pisar em um ensino superior que foi absolutamente engolido pela tecnologia. A universidade que espera por esses jovens passou por uma metamorfose.
O mundo acadêmico vive o que o professor S. Joe Qin, da Universidade Lingnan, chama de revolução da inteligência artificial. Em um artigo recente, Qin dissecou como a IA não está apenas servindo de muleta tecnológica, mas forçando uma “transformação digital-inteligente” profunda na dinâmica entre quem ensina e quem aprende.
A Universidade Lingnan testou isso na veia com o Generative AI Assessment System (GAAS), uma plataforma que faturou até medalha de bronze na Exposição Internacional de Invenções de Genebra. O sistema faz o trabalho braçal: corrige gramática, estrutura e checa formatação em tempo real. Em vez de o aluno esperar semanas agonizantes por uma nota, o retorno é imediato. E o professor? Livre da fadiga de corrigir centenas de textos e imune ao viés do cansaço, ele passa a focar no que realmente interessa: a espinha dorsal do argumento do aluno.
Pode parecer o roteiro de uma substituição inevitável, mas Qin é categórico ao afirmar que o educador é insubstituível. A educação é, na sua essência, um processo visceralmente social. Um algoritmo, por mais refinado que seja, não consegue ler a frustração no rosto de um calouro, não tem empatia para mediar uma crise de ansiedade e não oferece suporte emocional. Essa “orientação de valor emocional” é monopólio nosso. Tarefas baseadas em regras e rotinas vão ser delegadas às máquinas. Profissões inteiras não sumirão do mapa, mas o escopo do trabalho sim. Um assistente jurídico, por exemplo, vai gastar bem menos tempo caçando jurisprudência e mais tempo montando a estratégia do caso.
Para quem está entrando agora nesse moedor de carne, a regra do jogo mudou. Decorar conteúdo perdeu o sentido. O estudante precisa dominar a engenharia de prompt e entender a ética por trás da automação. Eles precisam abandonar a postura de consumidores passivos para virarem editores implacáveis e pensadores críticos. Bater de frente com a IA, apontar furos de lógica no que foi gerado, criar múltiplas soluções e saber ranqueá-las com a própria cabeça. Saber fazer a pergunta certa virou a habilidade mais cara do mercado.
Hoje, qualquer pessoa gera um texto com gramática impecável em cinco segundos. A tecnologia barateou a perfeição técnica. O que ficou escasso, o que virou artigo de luxo definitivo, é a intencionalidade humana, o pensamento filosófico, aquela faísca imperfeita que gera ressonância emocional. Para dar conta de um mundo saturado de conteúdo sintético, a saída é uma formação integral e interdisciplinar, misturando história, filosofia e ciência. No fim das contas, a flexibilidade cognitiva e a empatia necessárias para discutir feminicídio ou a epidemia das bets numa folha de redação são exatamente as mesmas ferramentas que vão garantir que esses jovens não sejam descartados pelos algoritmos amanhã. Aprender a aprender nunca foi tão urgente.




