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Do Tabu ao Superpoder: Como a Educação Está Aprendendo a Conviver com a IA

Quando o ChatGPT deu as caras lá em novembro de 2022, o pânico generalizado tomou conta das universidades. A primeira reação dos professores foi focar no medo de uma nova onda de plágio e na suposta morte daquela tradicional redação feita em casa, um dos pilares da avaliação acadêmica. A busca frenética era por soluções tecnológicas que pudessem caçar textos gerados por IA, bem na pegada do que o Turnitin já fazia com os copiões da internet. A regra era clara e inflexível: inteligência artificial na sala de aula, sem chance. Era o inimigo a ser abatido.

Hoje, a gente olha pra trás e vê o quão ingênua era essa postura. Independentemente de todo o chororô institucional, os alunos iam usar a tecnologia, e as universidades não teriam outra escolha a não ser engolir o orgulho e se adaptar. Tem uma frase do Clay Shirky que resume muito bem esse cenário: “no curto prazo, o rio diz à água para onde ir; no longo prazo, a água diz ao rio o que fazer”. E a maré virou rápido, puxada pelas mudanças brutais que começaram a rolar no mercado de trabalho com a adoção quase universal da IA. As empresas passaram a gerar um volume absurdo de dados e hoje dependem cada vez mais de machine learning e advanced analytics para tirar insights estratégicos dali.

Pega o mundo da contabilidade, por exemplo. A IA tem um potencial absurdo para melhorar a detecção de fraudes analisando bancos de dados inteiros de uma vez, em vez de ficar só em amostras aleatórias, o que deixa as auditorias muito mais cirúrgicas. As gigantes do setor já estão desenvolvendo seus próprios modelos para não depender de ferramentas públicas, enquanto as firmas menores ainda pisam em ovos por questões de segurança. São disrupções como essa que estão ditando o que e como os alunos precisam aprender.

Os números do mercado confirmam que ficar nadando contra a correnteza não faz mais sentido. Dados recentes do Handshake mostram que 85% dos formandos deste ano já adotaram ferramentas de IA — um salto de 31 pontos percentuais em apenas dois anos — e mais de um terço diz que usa a tecnologia todo santo dia. Do lado das empresas, a cobrança acompanha o ritmo: mais de 10% dos estágios ativos na plataforma já exigem alguma familiaridade com o tema, e a menção a habilidades em IA nas vagas de tempo integral quase dobrou em um ano, batendo 4,2%.

Diante dessa realidade, tratar a inteligência artificial como um tabu virou um tiro no pé. Como pontua meu colega John Tu, reitor associado na Saunders College of Business, não tem como proibir o uso na sala de aula. A grande questão agora é descobrir como usar melhor essas ferramentas e preparar a galera para não ficar comendo poeira quando forem pro mercado. O desafio, claro, é equilibrar o jogo: incorporar a IA sem deixar atrofiar o pensamento crítico e a capacidade de escrita dos alunos.

É aí que entra uma mudança de mentalidade que está ganhando tração nas universidades americanas. Na Saunders, a gente criou um “Faculty Exchange”, um espaço para os professores trocarem figurinhas sobre como colocar a IA no currículo, seja para criar avaliações ou configurar agentes que respondem às dúvidas dos alunos. Mas o pulo do gato é fazer a IA ser parte orgânica do aprendizado, e não um substituto dele. Vic Perotti, que cuida da área de MIS, marketing e analytics, defende que não dá pra abrir mão de ensinar os fundamentos. Mesmo assim, ele está empolgado com o nível da galera hoje. “Eles estão com superpoderes!”, diz ele. A lógica é que, se os alunos conseguem entregar um trabalho muito melhor com o auxílio da máquina, a gente pode — e deve — avaliá-los com uma régua bem mais alta.

Aprender Fazendo, Não Apenas Estudando

Enquanto alguns departamentos testam as águas, outras instituições já estão criando estruturas bem mais parrudas. Na Universidade da Virgínia (UVA), por exemplo, a resposta ao crescimento da tecnologia foi o lançamento de uma iniciativa focada em inserir a competência em IA direto nas disciplinas de vários cursos. Desenvolvido em parceria com a biblioteca da universidade, o AI Literacy and Action Lab foge daquela coisa passiva de sentar e ouvir um webinar.

O laboratório é estruturado em cima de cinco pilares criados por Leo Lo, reitor de bibliotecas da UVA: conhecimento técnico, consciência ética, pensamento crítico, habilidades práticas e o entendimento do impacto social da tecnologia. Segundo ele, as pessoas têm muito mais gás para aprender quando estão focadas em um problema real que querem resolver. É o aprendizado pela prática, substituindo a teoria distante por projetos que exigem mão na massa.

O ritmo dessa transformação é alucinante. Para acompanhar as exigências de um mercado que não para de mudar, estamos no meio de um processo intenso de revisão de currículos. As disciplinas novas e repaginadas ensinam os alunos a gerenciar, projetar e governar dados para aplicações práticas, mesclando os fundamentos acadêmicos com o que há de mais moderno em ferramentas de IA. É um cenário complexo, mas que finalmente parou de brigar com o futuro para tentar moldá-lo.