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A revolução da IA nas salas de aula: do ensino fundamental em Pequim à especialização criativa na Europa

Na China, a inteligência artificial deixou de ser uma disciplina eletiva ou uma curiosidade futurista para algumas crianças; ela agora é parte integrante da grade curricular. Em uma sala de aula de ensino fundamental no distrito universitário de Pequim, Li Zichen, de apenas 11 anos, demonstra com naturalidade um pequeno robô. Trata-se de um veículo controlado remotamente, capaz de levantar e mover blocos, que o próprio aluno programou utilizando inteligência artificial. Embora seja um projeto de pequena escala, a iniciativa fez o garoto pensar grande, traçando paralelos com os rovers que a China enviou a Marte e à Lua.

Zichen explica sua lógica com clareza: se um rover espacial se depara com uma cratera, ele não pode esperar por uma decisão vinda da Terra, pois o envio de sinais através do espaço leva muito tempo. A máquina precisa decidir sozinha. Para ele, a IA é vital para a exploração do espaço profundo pela nação. Enquanto isso, sua colega de classe, Song Haoyue, utiliza a tecnologia para fins artísticos. Usando o Wukong, um software de imagem baseado em IA, ela criou um cartaz para uma competição escolar ilustrando um pássaro mítico que tenta preencher o oceano pedra por pedra — uma parábola sobre perseverança.

Política de Estado e competitividade global

Enquanto o debate sobre a inteligência artificial nas escolas dos Estados Unidos se arrasta há anos — oscilando entre o medo de prejudicar o desenvolvimento cognitivo e social dos alunos e a preocupação com o aumento da exclusão digital —, as autoridades chinesas tomaram uma posição definitiva. Wang Le, professora de informática da Escola Primária Afiliada à Universidade de Correios e Telecomunicações de Pequim, afirma que o Ministério da Educação implementou uma nova estrutura obrigatória.

Desde o último outono, estudantes do ensino fundamental e médio em Pequim e diversos outros distritos começaram a ter aulas de IA. O currículo é progressivo: alunos da terceira série aprendem o básico; na quarta série, o foco muda para dados e codificação; já na quinta série, as crianças estudam “agentes inteligentes” e algoritmos. Segundo a professora Wang, trata-se de preparar as crianças para a vida e garantir um futuro banco de talentos qualificados para aumentar a competitividade do país. Ela cita o slogan político “Keji xingguo”, que significa construir uma nação forte por meio da ciência e tecnologia.

Esse lema resume o grande sonho do Partido Comunista: criar um país tecnologicamente avançado e autossuficiente. Com a IA rotulada como essencial para a segurança nacional e competitividade econômica, o governo almeja que a China se torne líder global no setor nos próximos quatro anos. Para pais como Li Yutian, pai de Zichen, a política tem apoio total. Em seu apartamento no sexto andar, ele conta que levou o filho recentemente a uma fábrica da Xiaomi — fabricante de celulares e carros — para ver a automação na prática, convicto de que esse é o caminho para o futuro profissional do menino.

O ensino superior se adapta à nova realidade

A pergunta que surge é: como será a educação superior quando essa geração chegar lá? A resposta pode já estar sendo formulada na Europa. A LABASAD (Barcelona School of Arts & Design), conhecida globalmente por sua abordagem vanguardista no ensino criativo online, decidiu reformular drasticamente sua estrutura acadêmica para a era da automação. A partir de 2026, a escola optou por reestruturar totalmente seu modelo educacional em torno da integração da IA, esperando liderar o caminho de como essa tecnologia pode ser proativamente aproveitada nos espaços acadêmicos.

Independentemente da disciplina, seja design de interiores, design interativo ou ilustração, a instituição agora favorece um modelo híbrido que une práticas tradicionais e avanços de IA. A filosofia da escola vai além do exercício técnico; o objetivo é acalmar as preocupações dos criativos sobre essa tecnologia muitas vezes vista como misteriosa ou ameaçadora. A ideia é defender o papel da IA como suporte à criatividade, e não como um substituto do artista. Ao dominar ferramentas generativas e algoritmos, os alunos são incentivados a pensar criticamente sobre eles. Na teoria, ao liberar os profissionais de tarefas repetitivas e processos técnicos demorados, a prática dos recém-graduados poderá se concentrar muito mais em conceito, criatividade e estratégia.

Estratégia aplicada ao designfeira

A mudança mais significativa no currículo da LABASAD ocorre no curso de Design Gráfico, que encapsula essa nova abordagem institucional. O curso foi dividido em três trilhas distintas: Mestrado Online em Princípios de Design Gráfico, Mestrado Online em Design Gráfico e Digital, e Mestrado Online em Brand Design. Cada caminho possui um “sabor” distinto de aplicação tecnológica. No mestrado focado em princípios, por exemplo, a IA é incentivada em empreendimentos experimentais dos alunos. Já no curso focado em marcas (Brand Design), a tecnologia é favorecida para pesquisa de mercado e estratégia.

Essa abordagem acadêmica, que pode ser considerada arrojada, já está em andamento. Embora a adoção da IA seja inabalável, ela é encarada com otimismo. As aulas, apesar de remotas, são sempre conduzidas ao vivo por profissionais atuantes na indústria. Esses mentores estão lá tanto para transmitir sabedoria quanto para encorajar os alunos a utilizar a automação de forma consciente, cimentando a tecnologia como um pilar de sustentação do trabalho criativo, jamais como uma ferramenta de substituição.