Reta final para o Enem: como repertórios socioculturais e o debate sobre IA podem elevar sua nota
Com a proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), o clima entre os mais de 3 milhões de inscritos é de pura correria. A redação, que acontece logo no primeiro dia de prova, continua sendo o maior gargalo para muitos estudantes, já que o seu peso pode simplesmente definir quem entra ou não na universidade. Para garantir uma nota alta, não basta apenas escrever bem; é preciso mostrar que você tem bagagem.
O segredo, segundo especialistas, está em dominar as cinco competências exigidas pelo Inep. De acordo com o professor de redação Minoru Sakamoto, o grande truque para não perder pontos por “lacunas” na argumentação é ser didático. “Toda afirmação no texto precisa de uma explicação. Argumentar é, na verdade, o exercício de explicar sua visão para o leitor”, afirma. Além disso, o Enem exige o que chamamos de repertório legítimo, produtivo e pertinente.
Estratégias para um repertório de peso
Para quem está preocupado em decorar fórmulas, a ideia é focar em conceitos amplos que se aplicam a vários temas. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é, talvez, a ferramenta mais versátil. Como lembra Sakamoto, ela serve para os sete eixos temáticos principais, da saúde ao meio ambiente. “O aluno não precisa citar o artigo exato, mas deve mencionar o direito que está sendo garantido ou violado ali”, explica.
Outras vozes brasileiras também oferecem argumentos poderosos. A frase clássica de Darcy Ribeiro — “A crise da educação no Brasil não é uma crise: é projeto” — ataca diretamente a falta de interesse político em resolver problemas estruturais. Já o conceito de “Cidadania de Papel”, do jornalista Gilberto Dimenstein, ajuda a ilustrar por que tantas leis no Brasil parecem não sair do papel na prática.
O desafio da tecnologia e o futuro do trabalho
Se o tema da redação enveredar pelo caminho da tecnologia ou do trabalho, as discussões recentes sobre Inteligência Artificial ganham um destaque inédito. Dario Amodei, CEO da Anthropic, trouxe reflexões pesadas em seu ensaio de 19 mil palavras intitulado “A Adolescência da Tecnologia”. Ele não mede palavras ao dizer que a IA é um “desafio civilizatório sério” e alerta que a tecnologia pode eliminar até 50% dos empregos de nível inicial em poucos anos.
Amodei defende que o desenvolvimento da IA é imparável devido aos ganhos financeiros e de segurança, o que torna a ética na corrida tecnológica algo vital. Para um estudante, usar o pensamento de figuras como Amodei pode enriquecer discussões sobre desemprego estrutural ou os limites éticos da inovação, especialmente quando ele compara a venda de chips avançados a regimes autoritários com a venda de armas nucleares.
Saúde e convivência social sob novos olhares
Para temas que envolvem saúde pública ou urbanismo, os professores sugerem sair do óbvio. Em vez de focar apenas em doenças, o conceito de Modelo de Assistência em Saúde permite discutir qualidade de vida, áreas verdes e informação como partes do SUS. No campo social, o Paradoxo da Tolerância, de Karl Popper, é uma citação certeira para discutir discursos de ódio e democracia, defendendo que um regime democrático não pode tolerar a intolerância sob o risco de ser destruído por ela.
Referências rápidas para salvar sua redação:
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Educação como arma: Nelson Mandela define o ensino como a ferramenta mais poderosa para transformar o mundo.
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Política de Eufemismos: Lilia Schwarcz argumenta que o Brasil tem o hábito de suavizar problemas graves, o que impede sua resolução real.
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Direito à Cidade: Um conceito que defende que o espaço urbano deve ser para as pessoas (lazer e mobilidade) e não apenas para fins comerciais.
No fim das contas, a preparação para a redação do Enem é um exercício de conectar esses diferentes mundos: a filosofia clássica, as leis fundamentais e os dilemas modernos da era digital.

