Da Ágora Antiga à Era da Inteligência Artificial: A Evolução do Pensamento Crítico e da Escrita
A busca pela verdade e pela estruturação do pensamento não é uma novidade trazida pela tecnologia, mas uma jornada que remonta ao século V a.C., em Atenas. Sócrates, nas praças públicas — a antiga ágora —, provocava os jovens intelectuais com o que chamava de “pequenas perguntas”, como “o que é a verdade?”. Essa retórica, que acabou levando ao seu julgamento e execução, defendia o princípio do livre inquérito sobre qualquer ideia, por mais sagrada que parecesse.
Plato, seu discípulo, preservou esses diálogos não pelas conclusões, mas pelo “estado de espírito” que produziam. Como observa o professor Ward Farnsworth em sua obra sobre o Método Socrático, o diálogo interno reorganiza a relação do indivíduo com suas próprias opiniões. Hoje, essa dinâmica ganha um novo palco: a “ágora digital” das grandes inteligências artificiais (IA). Embora essas tecnologias possam criar uma ilusão de verdade com respostas fluentes, elas oferecem, quando bem utilizadas, uma forma inédita de raciocínio e apoio pedagógico.
A tecnologia a serviço do raciocínio histórico
Educadores modernos têm explorado o potencial da IA para criar “histórias instigadoras” que fomentam o debate em sala de aula. Imagine uma aula de história em 2026, celebrando os 250 anos da Revolução Americana. Um professor pode utilizar a IA para gerar cenários complexos sobre as causas do conflito, como a tensão econômica de 1773.
Ao analisar o comércio de chá da época, os alunos descobrem que, para além do patriotismo, havia um robusto mercado paralelo. Comerciantes holandeses vendiam chá a preços muito inferiores aos da Coroa Britânica, contornando taxas e tarifas. A Lei do Chá de 1773, vista muitas vezes apenas como um imposto, foi também uma tentativa de esmagar esse contrabando ao subsidiar o excesso de chá da Companhia das Índias Orientais.
Para compreender fatos complexos como este, o método socrático se faz presente em três etapas essenciais: a formulação de uma afirmação sobre o problema, a escolha da razão mais interessante para sustentá-la e a reflexão sobre quais evidências poderiam modificar essa visão.
A estrutura da redação perfeita
Essa lógica de investigação, argumentação e evidência é exatamente o alicerce necessário para um dos maiores desafios dos estudantes brasileiros: a redação do Enem e de outros vestibulares. Escrever um bom texto dissertativo-argumentativo exige a mesma clareza mental que Sócrates demandava de seus interlocutores.
Para começar do zero, o primeiro passo é a leitura atenta da frase-tema e dos textos de apoio. É fundamental destacar palavras-chave, dados e referências que ajudem a delimitar a questão, lembrando sempre que copiar trechos da coletânea é proibido e que citar fontes é essencial para evitar o plágio.
Construindo o repertório e o roteiro
Antes de iniciar a escrita, o estudante deve fazer um levantamento de seu próprio repertório sociocultural. Perguntas internas são valiosas neste momento: “Tenho alguma informação histórica pertinente?”, “Lembro de algum livro, filme ou autor que trate das causas ou consequências deste problema?”. Selecionar os argumentos mais consistentes é o que diferenciará o texto comum de uma redação de alto desempenho.
A organização prévia é vital. Construir um roteiro ou esquema define o que aparecerá em cada parágrafo, garantindo que o foco no tema seja mantido e que nenhum detalhe relevante seja esquecido.
O esqueleto do texto: Introdução, Desenvolvimento e Conclusão
Na prática, a estrutura deve ser rígida porém fluida. A introdução precisa apresentar o tema e a tese a ser defendida, oferecendo um breve resumo do caminho que o texto percorrerá. No desenvolvimento, trabalha-se com dois ou três argumentos sólidos que sustentem essa tese, apoiados em fatos e evidências, evitando o “achismo”.
Para finalizar, a conclusão deve sintetizar os pontos principais e reforçar a tese. No caso específico do Enem, exige-se ainda uma proposta de intervenção detalhada para o problema apresentado. Após o rascunho, a revisão deve ser minuciosa: assuma o papel do corretor, identificando frases mal construídas, repetições, erros gramaticais e falhas de pontuação. Somente após essa “limpeza” o texto deve ir para a folha oficial.
Aprimoramento contínuo
Especialistas como Roberta Panza, Felipe Leal e Marcia Maisa Pelachin reforçam que a excelência vem com a prática. A recomendação é escrever pelo menos uma redação por semana, cronometrando o tempo para simular o dia da prova. Manter-se informado através de jornais e revistas é crucial para ter argumentos coerentes sobre o que acontece no Brasil e no mundo.
Se houver dificuldade em algum tema durante os simulados, a pesquisa em fontes confiáveis se faz necessária para preencher essa lacuna de conhecimento. Afinal, como sugere a filosofia socrática adaptada aos tempos modernos, estamos mais afiados quando trabalhamos sobre uma pergunta do que quando já temos a resposta pronta. Seja dialogando com uma IA sobre revoluções históricas ou estruturando uma redação para o vestibular, o segredo reside na capacidade de questionar, organizar e argumentar com clareza.


