Educação em transformação: das técnicas de redação às novas exigências da era da inteligência artificial
A proximidade do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) reacende anualmente a urgência da preparação dos estudantes brasileiros, com foco especial na redação. Considerada a porta de entrada para a avaliação, a introdução do texto dissertativo-argumentativo exige estratégia para não apenas captar a atenção do leitor, mas também definir o rumo de toda a argumentação. No entanto, enquanto alunos se esforçam para dominar a estrutura formal exigida pelas bancas nacionais, o cenário educacional global discute se os modelos tradicionais de ensino e avaliação ainda fazem sentido diante do avanço da inteligência artificial.
A estrutura ideal para o texto dissertativo
Para quem se prepara para vestibulares e concursos, a introdução da redação deve cumprir funções específicas. Especialistas recomendam iniciar com uma contextualização atrativa — o chamado “repertório sociocultural” —, que pode envolver citações de filmes, músicas, teorias sociológicas ou fatos históricos. Essa estratégia serve para prender a banca examinadora antes mesmo de apresentar o tema central.
Logo em seguida, a apresentação do assunto deve ser cirúrgica, utilizando as palavras-chave da proposta para evitar fugas tangenciais que penalizam gravemente a nota. O coração desse parágrafo inicial, contudo, é a tese. É ela que sustenta a espinha dorsal do texto, deixando claro o posicionamento que será defendido. Para fechar esse “projeto de texto”, um breve resumo dos próximos passos ajuda a engajar quem lê, indicando como o tema será desenvolvido. O uso de modalizadores, como “lamentavelmente” ou “uma realidade desafiadora”, reforça a autoria e o tom crítico, evidenciando o ponto de vista do aluno.
O perigo das fórmulas prontas
Embora a tentação de recorrer a “modelos coringas” ou frases pré-fabricadas seja grande, educadores alertam para o risco dessa prática. O uso de fórmulas decoradas compromete a autoria, uma competência muito valorizada pelas bancas de correção, e pode gerar falhas graves de coesão se o candidato tentar forçar um encaixe artificial da frase no raciocínio. O segredo não é decorar, mas entender a função de cada etapa textual e buscar referências adequadas — como o exemplo de uma redação que utiliza o filme “Coringa” para discutir o estigma das doenças mentais na sociedade brasileira, conectando ficção e realidade social.
O impacto da IA e o questionamento do modelo tradicional
Enquanto o domínio da escrita formal continua sendo um requisito imediato para o ingresso no ensino superior no Brasil, o mercado global de educação começa a questionar a validade de currículos baseados apenas em memorização e testes padronizados. É nesse cenário que a Sora Schools acaba de levantar 10 milhões de dólares em uma nova rodada de investimentos liderada pela Union Square Ventures e General Catalyst.
Segundo Garrett Smiley, CEO da Sora Schools, o aporte — que eleva o total de financiamento da empresa para 31 milhões de dólares, com a participação de novos investidores como Sparkmind Capital e LearnerStudio — não visa apenas o crescimento. O movimento responde a um abismo crescente entre o modelo escolar vigente e as demandas de um mundo moldado pela tecnologia. Smiley argumenta que premissas antigas, focadas em aulas expositivas e tarefas cognitivas rotineiras, tornam-se difíceis de justificar quando a IA reconfigura o acesso à informação e a execução de tarefas.
Novas competências para um novo mundo
Para o executivo, o sistema educacional tradicional corre o risco de otimizar os resultados errados. Com a inteligência artificial “comoditizando” o trabalho cognitivo repetitivo, o diferencial humano migra para competências que a máquina não substitui facilmente. Smiley destaca três pilares fundamentais para o futuro dos estudantes: agência (autonomia), “sensemaking” (a capacidade de dar sentido a informações complexas) e “storytelling” (a habilidade de construir narrativas envolventes).
O CEO alerta que os velhos sinais de sucesso acadêmico, como notas altas e ensaios perfeitamente polidos, estão se tornando métricas cada vez menos confiáveis e mais “ruidosas” em um ambiente rico em ferramentas de IA. A proposta da Sora Schools, portanto, é operar um modelo online focado em projetos do mundo real, abolindo o ritmo padronizado das aulas convencionais em favor de formatos flexíveis de aprendizado.
Com o novo capital, a organização planeja expandir sua atuação para além de seu modelo atual, buscando parcerias com escolas públicas, instituições privadas e programas extracurriculares. O objetivo, segundo Smiley, é criar um ambiente onde a tecnologia e o conteúdo sejam ferramentas, e não o fim, permitindo que os estudantes desenvolvam a capacidade de navegar na incerteza em vez de apenas seguir instruções predefinidas.


